AGRONEGÓCIO E FINANCEIRIZAÇÃO DA TERRA: EXPANSÃO DAS FRONTEIRAS AGRÍCOLAS, CONCENTRAÇÃO FUNDIÁRIA E INTENSIFICAÇÃO DOS CONFLITOS TERRITORIAIS NO CAMPO
DOI:
https://doi.org/10.18623/rvd.v23.6568Palabras clave:
Financeirização da Terra, Concentração Fundiária, Conflitos Territoriais, AgronegócioResumen
Nas últimas décadas, o Brasil tem apresentado crescimento expressivo dos conflitos territoriais no campo, cenário diretamente relacionado à expansão do agronegócio e à financeirização da terra. Somente em 2024, foram registrados 2.185 conflitos no campo brasileiro, envolvendo mais de 1,1 milhão de pessoas e mais de 75 milhões de hectares, enquanto o Atlas dos Conflitos no Campo Brasileiro aponta mais de 14 mil registros de violência contra pessoas no campo entre 1985 e 2023. Nesse contexto, a valorização da terra como ativo financeiro, a internacionalização do mercado fundiário e a articulação entre capital financeiro, corporações agroexportadoras e políticas estatais têm ampliado a expansão das fronteiras agrícolas, a concentração fundiária e os conflitos envolvendo povos indígenas, comunidades tradicionais, camponeses e trabalhadores rurais. Diante desse cenário, o presente estudo tem como objeto de análise a relação entre agronegócio, financeirização da terra e intensificação dos conflitos territoriais no campo brasileiro. Assim, estabelece-se como pergunta de partida: de que maneira a financeirização da terra e a expansão do agronegócio contribuem para o aprofundamento da concentração fundiária e para a intensificação dos conflitos territoriais no campo? A pesquisa dialoga com estudos sobre questão agrária, financeirização da agricultura, concentração fundiária e violência no campo, utilizando como base central relatórios da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e pesquisas sobre financeirização da terra no Brasil analisado a partir dos trabalhos de Aline Braz dos Santos et al. (2022), Araújo e Araújo Sobrinho (2026), Arrighi (2007; 2010), Assunção e Depieri (2022), Bernstein (2003; 2010), Borras Jr. et al. (2018), Clapp (2012; 2015), Clapp e Isakson (2018), Cogueto (2018), CPT (2024; 2025), Fernandes (2000; 2005), Harvey (2003; 2006; 2008; 2014; 2021), Kashi e Watts (2010), Kato e Leite (2020), Li (2007; 2014), Li e Semedi (2021), McMichael (2014), McMichael e Weber (2022), Moore (2015), Moyo (2008), Moyo e Yeros (2005), Oliveira (2003; 2007), Peet e Watts (2004), Polanyi (2001), Sassen (1998; 2008; 2014), Scott (1976; 1985; 1998), Shiva (2015; 2016), Santos (2001; 2002; 2006; 2025), Wallerstein (1983; 2011), Watts (1983), entre outros. Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa qualitativa e quantitativa (Minayo, 2007), bibliográfica, descritiva e documental (Gil, 2008), fundamentada na análise crítica-compreensiva (Weber, 1949) dos relatórios, dados estatísticos e produções acadêmicas. Os resultados mostram que a financeirização da terra intensificou a concentração fundiária e ampliou a transformação do território rural em ativo financeiro vinculado à expansão das commodities agrícolas e aos circuitos globais de acumulação de capital. A pesquisa identificou que a articulação entre agronegócio, capital financeiro e políticas estatais contribuiu para o crescimento dos conflitos territoriais, da violência no campo e da pressão sobre povos indígenas, comunidades tradicionais e agricultores familiares. Além disso, verificou-se que alternativas associadas à reforma agrária, à agroecologia, à soberania alimentar e à proteção dos bens comuns apresentam potencial relevante para redução das desigualdades fundiárias, fortalecimento territorial comunitário e construção de modelos agrários ambientalmente sustentáveis.
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