O PREÇO DO DIREITO: JUDICIALIZAÇÃO DE MEDICAMENTOS NÃO INCORPORADOS, INEFICIÊNCIAS ECONÔMICAS EVITÁVEIS E SUSTENTABILIDADE DA ASSISTÊNCIA FARMACÊUTICA NO SUS
DOI:
https://doi.org/10.18623/rvd.v23.8234Keywords:
Medicamentos Não Incorporados, Compras Públicas, Custo De Oportunidade, Sustentabilidade FinanceiraAbstract
A judicialização de medicamentos não incorporados ao Sistema Único de Saúde (SUS) constitui uma via excepcional de proteção do direito individual à saúde, mas pode induzir aquisições urgentes, fragmentadas e menos favoráveis à programação, à competição entre fornecedores e à negociação de preços. A concentração de recursos em poucos tratamentos intensifica a tensão entre acesso individual, equidade distributiva, custo de oportunidade e sustentabilidade da assistência farmacêutica. O artigo tem como objeto de pesquisa as relações entre a judicialização de medicamentos não incorporados, as ineficiências econômicas evitáveis nas compras públicas determinadas judicialmente e a sustentabilidade da assistência farmacêutica no SUS. A investigação parte da seguinte pergunta: por quais mecanismos a judicialização de medicamentos não incorporados pode produzir ineficiências econômicas evitáveis nas compras públicas e pressionar a sustentabilidade da assistência farmacêutica no SUS? Teoricamente, fizemos uso dos trabalhos de Daniels (1985; 2008), Daniels e Sabin (2002), Drummond et al. (2015), Gostin (2014), Ruger (2009), Gauri e Brinks (2008), Yamin (2016), Ferraz (2021), McPake et al. (2020), Tobin (2012), Harrington e Stuttaford (2010), Wang (2022), Rascati (2009), entre outros. A pesquisa possui abordagem qualitativa, caráter descritivo e natureza bibliográfica e documental, com viés analítico-compreensivo, apoiando-se em Minayo (2007), Gil (2008) e Weber (1949). O estudo examina normas, precedentes judiciais, documentos institucionais e dados quantitativos secundários produzidos pelo Conselho Nacional de Justiça, pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária e pela pesquisa sobre assistência farmacêutica no SUS, interpretados mediante articulação entre direito à saúde, avaliação de tecnologias, farmacoeconomia e sustentabilidade orçamentária. Os resultados demonstram que as ineficiências econômicas evitáveis decorrem da combinação entre urgência, fragmentação das demandas, redução da concorrência, perda de escala e menor capacidade de negociação, fatores que podem elevar os preços das compras judiciais em relação às aquisições administrativas. Constatou-se, contudo, que nem toda compra judicial é ineficiente nem toda despesa judicializada representa perda, devendo-se distinguir a legitimidade clínica do fornecimento das condições econômicas de aquisição. A acumulação dessas despesas pressiona os orçamentos compartilhados e reduz a margem disponível para outras necessidades farmacêuticas, afetando a sustentabilidade da assistência no SUS.
References
AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (Brasil). Secretaria-Executiva da Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos. Relatório de análise de impacto regulatório: resolução de fixação de preços para atendimento de demandas judiciais. Brasília, DF: Anvisa, 2026.
BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria nº 2.981, de 26 de novembro de 2009. Aprova o Componente Especializado da Assistência Farmacêutica. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 30 nov. 2009.
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Recurso Extraordinário nº 566.471/RN: Tema 6 da repercussão geral. Relator: Min. Marco Aurélio. Redator do acórdão: Min. Luís Roberto Barroso. Brasília, DF: Supremo Tribunal Federal, 2024.
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Súmula Vinculante nº 61: critérios para a concessão judicial de medicamentos não incorporados ao SUS. Brasília, DF: Supremo Tribunal Federal, 2024. Publicada no Diário da Justiça Eletrônico em 3 out. 2024.
CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA; PROGRAMA DAS NAÇÕES UNIDAS PARA O DESENVOLVIMENTO. Diagnóstico da judicialização da saúde pública e suplementar. Brasília, DF: CNJ, 2025.
DANIELS, N. Just health care. Cambridge: Cambridge University Press, 1985.
DANIELS, N. Just health: meeting health needs fairly. Cambridge: Cambridge University Press, 2008.
DANIELS, N.; SABIN, J. E. Setting limits fairly: can we learn to share medical resources? New York: Oxford University Press, 2002.
DESLANDES, S. F. O projeto de pesquisa como exercício científico e artesanato intelectual. In: MINAYO, M. C. S.; DESLANDES, S. F.; GOMES, R. Pesquisa social: teoria, método e criatividade. 26. ed. Petrópolis: Vozes, 2007. p. 31-60.
DRUMMOND, M. F. et al. Methods for the economic evaluation of health care programmes. 4. ed. Oxford: Oxford University Press, 2015.
FERRAZ, O. L. M. Health as a human right: the politics and judicialisation of health in Brazil. Cambridge: Cambridge University Press, 2021.
FLICK, U. Introdução à metodologia de pesquisa: um guia para iniciantes. Tradução de M. Lopes. Revisão técnica de D. Silva. Porto Alegre: Penso, 2013.
GAURI, V.; BRINKS, D. M. (ed.). Courting social justice: judicial enforcement of social and economic rights in the developing world. Cambridge: Cambridge University Press, 2008.
GIL, A. C. Métodos e técnicas de pesquisa social. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2008.
GOSTIN, L. O. Global health law. Cambridge, MA: Harvard University Press, 2014.
HARRINGTON, J.; STUTTAFORD, M. (ed.). Global health and human rights: legal and philosophical perspectives. Abingdon: Routledge, 2010.
MANAGEMENT SCIENCES FOR HEALTH. MDS-3: managing access to medicines and health technologies. Arlington, VA: Management Sciences for Health, 2012.
MCPAKE, B. et al. Health economics: an international perspective. 4. ed. Abingdon: Routledge, 2020.
MINAYO, M. C. S. O desafio da pesquisa social. In: MINAYO, M. C. S.; DESLANDES, S. F.; GOMES, R. Pesquisa social: teoria, método e criatividade. 26. ed. Petrópolis: Vozes, 2007. p. 9-29.
PIRES, S.; PARDAL, V. Entenda julgamento do STF sobre critérios para fornecimento de medicamentos de alto custo. Supremo Tribunal Federal, Brasília, DF, 13 set. 2024. Disponível em: https://noticias.stf.jus.br/postsnoticias/entenda-julgamento-do-stf-sobre-criterios-para-fornecimento-de-medicamentos-de-alto-custo/. Acesso em: 3 ago. 2026.
PRODANOV, C. C.; FREITAS, E. C. Metodologia do trabalho científico: métodos e técnicas da pesquisa e do trabalho acadêmico. 2. ed. Novo Hamburgo: Feevale, 2013.
RASCATI, K. L. Essentials of pharmacoeconomics. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins, 2009.
RUGER, J. P. Health and social justice. Oxford: Oxford University Press, 2009.
SANTOS, A. N. S. dos. “Cultivando o saber”: o papel essencial do aperfeiçoamento do conhecimento dos profissionais na atenção básica à saúde para a demanda da população local no município de Horizonte, estado do Ceará. Diálogos & Ciência, [S. l.], v. 3, n. 2, p. 236-248, 2024. Disponível em: https://periodicos.uniftc.edu.br/index.php/dialogoseciencia/article/view/985. Acesso em: 3 ago. 2026.
SANTOS, A. N. S. dos. et al. Por uma atenção primária transformadora: formação e capacitação profissional para fortalecer o trabalho no cuidado à saúde da família. ARACÊ, [S. l.], v. 7, n. 3, p. 11001–11030, 2025. Disponível em: https://periodicos.newsciencepubl.com/arace/article/view/3700. Acesso em: 3 ago. 2026.
SANTOS, A. N. S. dos; SILVA, A. G. da; DUTRA, L. da C. et al. Saúde coletiva e equidade: desafios e estratégias para um sistema de saúde inclusivo e sustentável. Observatório de la Economía Latinoamericana, [S. l.], v. 23, n. 2, e8946, 2025. Disponível em: https://doi.org/10.55905/oelv23n2-041. Acesso em: 3 set. 2026.
SANTOS, A. N. S. dos; LOPATIUK, C.; DANTAS, T. M. et al. Políticas de saúde e desigualdade: determinantes sociais e barreiras no acesso aos serviços do Sistema Único de Saúde (SUS). ARACÊ, [S. l.], v. 7, n. 4, p. 17006–17039, 2025. Disponível em: https://periodicos.newsciencepubl.com/arace/article/view/4324. Acesso em: 3 ago. 2026.
SANTOS, A. N. S. dos; LOPES, C. E. T.; MELLO, E. C. de A. et al. Educação permanente e atenção básica na saúde: a importância do aprimoramento do conhecimento dos profissionais que trabalham na atenção básica na saúde para a demanda da população local em um município do Estado do Ceará. Contribuciones a las Ciencias Sociales, [S. l.], v. 17, n. 5, e6661, 2024. Disponível em: https://doi.org/10.55905/revconv.17n.5-044. Acesso em: 3 ago. 2026.
STAKE, R. E. Pesquisa qualitativa: estudando como as coisas funcionam. Tradução de K. Reis. Porto Alegre: Penso, 2011.
TOBIN, J. The right to health in international law. Oxford: Oxford University Press, 2012.
VIEIRA, F. S. et al. Pesquisa assistência farmacêutica no SUS: uma síntese dos principais resultados para gestores de saúde (2019-2023). 1. ed. Brasília, DF: Conselho Nacional de Secretários de Saúde, 2025.
WANG, D. W. L. Health technology assessment, courts, and the right to healthcare. Abingdon: Routledge, 2022.
WEBER, M. The methodology of the social sciences. Tradução e organização de E. A. Shils e H. A. Finch. Glencoe, Illinois: The Free Press, 1949.
WILLIAMS, R. F. G.; DOESSEL, D. P. The economics of mental health care: industry, government and community issues. Abingdon: Routledge, 2018.
YAMIN, A. E. Power, suffering, and the struggle for dignity: human rights frameworks for health and why they matter. Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 2016.
Downloads
Published
How to Cite
Issue
Section
License
I (we) submit this article which is original and unpublished, of my (our) own authorship, to the evaluation of the Veredas do Direito Journal, and agree that the related copyrights will become exclusive property of the Journal, being prohibited any partial or total copy in any other part or other printed or online communication vehicle dissociated from the Veredas do Direito Journal, without the necessary and prior authorization that should be requested in writing to Editor in Chief. I (we) also declare that there is no conflict of interest between the articles theme, the author (s) and enterprises, institutions or individuals.
I (we) recognize that the Veredas do Direito Journal is licensed under a CREATIVE COMMONS LICENSE.
Licença Creative Commons Attribution 3.0
